Qual o meu caminho critico? Aumentando a maturidade no planejamento dos projetos

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Eduardo Sampaio Alves

 

Embora a importância do planejamento seja bem conhecida e propalada, muitos são os projetos que não apresentam no seu planejamento um caminho crítico consistente, racional e exequível. Neste artigo é abordado o papel do caminho critico no gerenciamento de projeto e são apresentadas algumas das principais causas das inconsistências encontradas na identificação deste caminho critico.

1. Introdução

Uma das primeiras questões que o gerente de projeto busca é a definição do caminho critico do projeto. Entretanto devido à definição do caminho critico englobar uma gama de variáveis devemos definir claramente quais as condições necessárias para se obter o caminho critico consistente a partir de um cronograma que atenda todas as orientações de boas práticas.

O cronograma, que geralmente é jeito através de softwares de planejamento (Project, Primavera, etc.), é a principal ferramenta de planejamento e serve de base para a execução do projeto e para o acompanhamento periódico de seu progresso. Estes softwares de planejamento permitem a obtenção do caminho critico apenas com um único “clique”. Entretanto, por mais que seja simples a obtenção do caminho critico, ainda são inúmeros os projetos que possuem caminho critico inconsistentes e que não representam a sequencia mais longa de atividades do projeto.

Uma vez que a principal causa da inconsistência dos caminhos críticos está em deficiências na lógica do cronograma, veremos no item seguinte quais são as boas práticas para a elaboração de cronogramas.

2. Boas práticas no desenvolvimento de cronogramas

Em um setor dinâmico como o de gerencimento de projetos, onde se valoriza muito a prática, é difícil a difusão dos fundamentos técnicos necessários para a elaboração de cronogramas, que nada mais são do que modelos matemáticos que representam a realização do projeto, através das atividades, suas sequencias e datas principais, além de muitas outras variáveis.

O principal documento que aborda o assunto é o “Project Scheduling Pratice Standard” desenvolvido pelo PMI, entretanto visando buscar um aspecto mais pratico a questão iremos considerar neste artigo as recomendações do “GAO Schedule Assessment Guide: Best Practices for Developing and Managing Capital Program Schedules”.

Este guia é desenvolvido pelo GAO (Government Accontability Office), que é um órgão do governo americano que é referencia no gerenciamento de projetos, e define quais boas práticas são necessárias para se desenvolver um cronograma, conforme abaixo:

1. Consideração de todas as atividades;

2. Sequenciamento de todas as atividades;

3. Designação de recursos a todas as atividades;

4. Estabelecimento de durações para todas as atividades;

5. Cronograma integrado vertical e horizontalmente;

6. Estabelecimento do caminho crítico;

7. Razoáveis folgas totais;

8. Condução de análise de risco do cronograma;

9. Atualização do cronograma;

10. Criação de uma linha de base do cronograma.

Dentre as práticas acima, destacamos os itens 2 (Sequenciamento de todas as atividades), 6 (Estabelecimento do caminho crítico) e 7 (Razoáveis folgas totais) por tratarem de assuntos referente a estruturação da lógica das ligações entre as atividades e consequentemente ao estabelecimento das folgas e a definição do caminho crítico consistente.

A correta estruturação lógica do cronograma é condição fundamental para a obtenção de um caminho critico consistente uma vez que a dinâmica do cronograma está atrelada ao Método do Caminho Critico que atua como um algoritmo que busca determinar o caminho mais longo, ou seja, o caminho crítico e que veremos no item a seguir.

3. O Método do Caminho Critico

O Método do Caminho Critico (CPM – Critical Path Method) permite identificar o caminho crítico de um projeto, através da determinação de datas de início e término mais cedo e de início e término mais tarde de cada atividade existente, sem considerar quaisquer limitações de recursos. Os diferentes caminhos possíveis no diagrama de rede do projeto permitem com que uma atividade possua uma faixa de datas possíveis de início e término (datas mais cedo e mais tarde de início e término).

Através destas datas, é possível determinar a folga livre e a folga total de uma atividade. A folga livre informa quanto tempo uma atividade pode atrasar sem que haja impacto no início da atividade sucessora. Já a folga total informa quanto tempo uma atividade pode atrasar sem que haja impacto no término do projeto.

Ao identificarmos o caminho que contém as atividades com folga total igual a zero ou ainda o caminho que contém a maior duração na soma das durações parciais das atividades, estaremos determinando assim, o caminho crítico do projeto. As atividades que residem no caminho crítico são denominadas atividades críticas e são aquelas que necessitam ser mais bem gerenciadas sob o risco de comprometerem o prazo do projeto. Assim por exemplo, se uma série de atividades for concluída com atraso, no entanto, o projeto como um todo ainda ser concluído dentro do prazo, porque estas atividades não se encontravam no caminho crítico. Por outro lado, se o seu projeto está atrasado, e você alocar recursos adicionais em atividades que não estão no caminho crítico não fará com que o projeto termine mais cedo.

4. Problemas na lógica do cronograma

O sequenciamento lógico das atividades é diretamente relacionado ao cálculo das folgas e do caminho critico. Se o cronograma tem atividades sem ligações ou atividades ligadas incorretamente as folgas são calculadas erroneamente. Cálculos incorretos de folgas resultam em caminhos críticos inconsistentes. Dentre as atividades sem ligação temos as conhecidas como “atividades pendentes” (também chamadas de “lógica interrompida”) que reduzem a credibilidade do cálculo das datas de início e fim das atividades e da identificação do caminho crítico. O escorregamento ou alongamento de uma atividade que não tem sucessores lógicos não terá seu efeito refletido nas datas de inicio das atividades sucessoras.

“Atividades pendentes” são atividades cuja lógica não permite identificar as corretas datas de inicio e fim das atividades quando sua duração muda. Assim uma atividade (que não um marco de início) que não possui uma ligação Témino-Inicio ou Inicio- Inicio com o seu predecessor que oriente a data de inicio, terá seu inicio antecipado se duração projetada for aumentada. Esta antecipação pode ser irreal.

Da mesma forma, uma atividade (que não um marco de fim) que não possui uma ligação Témino-Inicio ou termino-Termino com o seu sucessor, não terá os efeitos de um atraso repassado as atividades sucessoras. Assim, em outras palavras, a regra comum de que “cada atividade precisa de um sucessor” não é especifica suficientemente. O correto é que cada atividade necessita de um sucessor para sua data de fim. Também são causas para a inconsistência da lógica as redundâncias nas ligações, a convergência de muitos caminhos em uma única atividade e o uso indiscriminado de lags (postergações) e leads (antecipações).

5. Conclusão

O caminho crítico consistente permite identificar em quais atividades se tem e em quais não se tem flexibilidade. Entretanto uma estrutura lógica inconsistente distorce o valor da folga total, distorcendo consequentemente o caminho critico e não permitindo a correta representação da flexibilidade do cronograma.

O entendimento desta necessidade pelo gerente do projeto permitirá que ações sejam tomadas visando aumentar a maturidade do planejamento de modo a permitir que melhores decisões sejam tomadas.

6. Referencias Bibliográficas

Anderson, Mark I. Recovery Schedules. Rockville, Md.: WarnerConstruction Consultants, 2006.

Cooper, Sue L. “Basic Schedule Analysis.” Presentation to the International Society of Parametric Analysts and the Society of Cost Estimating and Analysis. Denver, Colo.: Boeing, June14–17, 2005 GAO. GAO Schedule Assessment Guide: Best Practices for project schedules, GAO- 12-120G. Washington, D.C.: May., 2012.

Hulett, David T. Advanced Project Scheduling and Risk Analysis. Los Angeles, Calif.: Hulett and Associates, 2009.

 


Eduardo Sampaio é Gerente de Planejamento Integrado e Desempenho na Petrobras. Engenheiro e Mestre em Engenharia de Produção pela Universidade Federal de Santa Catarina, com certificação PMP, PMI-RMP e PMI-SP. Há 18 anos atuando em gerenciamento de projetos de setores de energia, metal-mecânica e logística.

 

2 Comentários

  1. Muito bom o artigo ! Vale lembrar que o nivelamento de recursos pode tornar um caminho não crítico em crítico em função da restrição do uso de recursos !
    Abçs

  2. O conteúdo está bem organizado e as definições e passos estão bem claros! Muito legal.

    No entanto, vale aqui um alerta em relação ao que consideramos FOLGA e CAMINHO CRÍTICO, em especial quando você sugere (adequadamente) atenção a colocação dos recursos de projeto, pois algumas ferramentas irão mostrar “em vermelho” as atividades do caminho crítico calculando elas exclusivamente pelo link ente atividades e desconsiderar as folgas calculadas pelas restrições de recurso, gerando um caminho crítico (calculado com CPM) que é incompatível com o caminho crítico real do projeto, quando este foi nivelado por recursos.

    Aqui eu ilustro um cronograma em MS-Project que foi NIVELADO por RECURSOS: O caminho crítico ficou “interrompido” e inconsistente, embora a lógica entre tarefas esteja correta.
    http://br10.net/?attachment_id=3714

    Aqui o mesmo cronograma com o caminho crítico REAL, calculado com base não só a lógica das atividades, mas também do uso dos recursos:
    http://br10.net/?attachment_id=3715

    Abraço,

    Peter Mello, PMP, PMI-SP

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