Comissionamento em Projetos Industriais de Investimento: Considerações sobre esta Ferramenta do Processo de Controle da Qualidade

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Rodrigo Mendes Gandra

 

Introdução

Na escassa literatura sobre Comissionamento de sistemas e subsistemas em projeto industriais, a definição do termo é inebriada pela grande amplitude pelo qual o seu escopo pode ser interpretado e pelas diversas formas de inseri-la no contexto de gerenciamento de projetos. Ou seja, há pouca clareza e, até mesmo divergências, sobre a definição do conceito de Comissionamento: é uma fase do projeto, uma área de conhecimento, um processo de gerenciamento de projetos a la PMBoK, um subprojeto, ou uma atividade? Corroborando as dúvidas citadas acima, o International Electrotechnical Commission (2006: 5) afirma que: “There is an increasing trend in the process industry to award the construction of whole plants to contractors on a lump-sum turnkey or similar commercial basis. Experience has shown that both the process industry (hereinafter called “the owner”) and the contractor have long and expensive discussions to lay down unambiguously the scope of activities to be taken by the contractor and the owner and their responsibilities to achieve the handover of the plant”.

A fim de sugerir uma definição mais clara e estabelecer limites para entendimento de seus limites, este trabalho parte da ótica de um gerente de projetos que tem por objetivo planejar, executar e entregar um empreendimento para um cliente final.

Além de sugerir uma definição mais clara para o conceito de Comissionamento, o trabalho o contextualiza no âmbito do gerenciamento de projetos entendido pelo Project Management Institute (PMI) no PMBoK e no Construction Extension to The PMBoK. Com base na experiência profissional e teórica dos autores, o conjunto de conhecimentos, compilados nestas duas publicações do PMI, não é suficiente para executar o Controle da Qualidade em projetos industriais, pois ele limita-se em considerar como ferramentas e técnicas: Inspeção e Revisão de Reparo de Defeito. Lembrando que o processo de Verificação do Escopo (quando ocorre a aceitação das entregas pelo cliente) não faz parte do Comissionamento, como será visto adiante.

A partir da proposta de definição e de limites do escopo do Comissionamento, os autores sugerem ainda a identificação e divisão de mais três atividades, antes entendidas (de forma um quanto não-consensual) como subatividades internas do Comissionamento, quais sejam: Condicionamento, Partida e Operação Assistida.

A consideração do Comissionamento, de Condicionamento, da Partida e da Operação Assistida como atividades independentes, facilita o entendimento dos limites de cada atividade que, no entender dos autores, requerem um conjunto de técnicas e ferramentas distintas a fim de serem executadas.

Por fim, este trabalho está em plena sintonia ao conjunto de conhecimentos do PMI, apenas complementando o processo de Realizar o Controle da Qualidade, quando se tratada do gerenciamento de projetos industriais. O benefício desta iniciativa é torna mais transparente a ligação entre o processo de Realizar o Controle da Qualidade e o processo de Verificação do Escopo (quando ocorre a aceitação das entregas pelo cliente).

Este artigo refere-se à visão restrita dos autores, tratando-se de uma crítica construtiva para o avanço do conhecimento (que não se esgota neste trabalho), não tendo a intenção de desqualificar visões alternativas. Além disso, este artigo incorpora a experiência profissional do autor quando esteve em contato com algumas outras boas práticas utilizadas por empresas do setor de Exploração e produção de Óleo e Gás, da Indústria Naval e de Construção e Montagem (Empreiteiras) complementando as versões anteriores deste artigo publicadas por Gandra e Lopes (2009) e Gandra (2010).

Comissionamento e a diversidade conceitual na literatura

Qual o significado, qual o escopo, e onde se insere o conceito de Comissionamento na literatura de gerenciamento de projetos atualmente? Ele é uma fase do ciclo de vida do projeto, um processo de gerenciamento de projetos a la PMBoK, um subprojeto, ou um conjunto de atividades (técnicas e ferramentas)? Nesta sessão, será feita uma breve consulta à literatura disponível para que se possa observar a amplitude conceitual sobre o tema.

Segundo a ScottMadden (2009), o Comissionamento é entendido como uma fase do ciclo de vida do projeto, onde ocorre: a certificação, os testes de operabilidade dos equipamentos, a partida, a certificação da estabilidade da eficiência operacional, e a manutenção das entregas dos documentos de projeto. Embora não haja certo e errado para esta questão, esta visão parece ser pouco objetiva, pois o Comissionamento aparece como uma fase anterior à fase de encerramento do projeto (Figura 1). Além disso, a experiência tem mostrado que o Comissionamento pode estar presente em todas as fases do ciclo de vida do projeto e, quanto antes for feito, maior qualidade a ser alcançada nas entregas e mais ágil a obtenção da aceitação do cliente (no processo de Verificação de Escopo).

De Souza (2002: 47) também define o Comissionamento como fase do ciclo de vida do projeto, permitindo “garantir que o projeto está de acordo com as necessidades do usuário. É a validação do projeto pelo cliente. A aprovação do cliente final ocorre durante a posta em marcha, quando o sistema é colocado em funcionamento. (…) A validação objetiva é a garantia de que o projeto está de acordo com as necessidades do usuário, conforme condições operacionais. Desta maneira, fica registrado que o projeto atingiu seus objetivos junto ao cliente”. Ele ainda acrescenta a possibilidade de haver a exigência, por parte do cliente, de uma etapa adicional denominada “operação assistida”, onde a estabilidade operacional da planta é atingida. Desta forma, a partida da planta (startup) e a garantia de sua estabilidade operacional fariam parte desta fase denominada por Comissionamento. Esta visão do Comissionamento como fase do ciclo de vida do projeto sugere que ele ocorra apenas no final do projeto. Além disso, De Souza (2002) parece inserir o Processo de Verificação do Escopo dentro do Comissionamento. Contrapondo esta visão, ao que parece, fica mais claro sugerir que o Comissionamento é um conjunto de ferramentas que servirá de insumo para o Processo de Verificação do Escopo e obtenção da aceitação final do projeto pelo cliente.


 

 Figura 1. Entendendo Comissionamento como Fase de Projeto segundo ScottMadden (2009)

 Apresentação retirada em 03/06/2006 deste site.

 

Como o Comissionamento foi tradicionalmente concebido como um conjunto de atividades executadas nas fases finais de construção e montagem, ele acaba sendo considerado como uma fase do ciclo de vida do projeto (embora atualmente se reconheça que ele não ocorre apenas nas fases finais do projeto). Contudo, e experiência tem mostrado que o sucesso dos projetos tem correlação positiva com a antecipação das atividades preventivas (tal como ocorre com o Comissionamento), uma vez que os custos de prevenção são menores que os custos de correção. Desta forma, é natural supor que o Comissionamento venha ocorrer desde as fases iniciais do ciclo de vida dos projetos até o final.

Concebendo o Comissionamento como uma fase do ciclo de vida do projeto, onde ocorrem diversas atividades simultâneas denominadas pela mesma palavra, além de gerar confusão conceitual (como se tem observado em diversos anexos de contratos de EPC para implantação de unidades industriais) contribui, ainda, para gerar impasses de natureza contratual entre contratada e cliente. A falta de objetividade de sua definição e amplitude de seu escopo pode gerar frustrações no que diz respeito à dificuldade apontamento das atribuições e das responsabilidades. Ou seja, a ideia é “quebrar” o conceito de Comissionamento e dividi-lo em outros, a fim de delimitar seu escopo.

Do ponto de vista de quem é o executante do projeto, o Comissionamento pode ser um subprojeto ou um projeto a parte; mas isto ocorre apenas na visão de quem foi contratado para planejar, executar e finalizar o serviço de Comissionamento. Para o Gerente do Projeto que tem a responsabilidade de planejar, implantar e entregar o produto final com qualidade requerida em contrato, o Comissionamento será apenas um conjunto de ferramentas e técnicas utilizadas para o processo de Realização do Controle da Qualidade (inserido na área de conhecimento de Gerenciamento da Qualidade do PMBoK). Uma vez atestada a qualidade requerida, o projeto passa pelo Processo de Verificação do Escopo, onde ocorre a aceitação das entregas pelo cliente até a assinatura do Termo de Aceitação (quando será iniciada as atividades de encerramento do projeto). Deve-se ter em mente que pode haver a Verificação do Escopo de partes do projeto ao longo do ciclo de vida, mas a Verificação Final do Escopo (VFE) do projeto como um todo só ocorre com a assinatura do Termo de Aceitação.

Esta visão parece ser corroborada por Gaete e Prates (2007) que definem o Comissionamento como: “conjunto de técnicas e procedimentos de engenharia aplicados de forma integrada a uma unidade (ou planta) industrial, visando torná-la operacional, dentro dos requisitos estabelecidos pelo cliente final. Assegurar a transferência da unidade industrial do construtor para o operador de forma ordenada e segura, garantindo sua operabilidade em termos de desempenho, confiabilidade e rastreabilidade de informações”.

A Figura 2 ilustra o escopo das atividades de Comissionamento na visão de Gaete e Prates (2007), que embora apresente um escopo amplo, é mais clara e definida que as visões apresentadas anteriormente. Note que o Pré-comissionamento, a Preparação de Partida, a Partida, e a Operação Assistida fazem parte de uma pseudo-atividade denominada por “Grade Comissionamento”. Para efeito de um melhor esclarecimento dos limites das subatividades do “Grade Comissionamento”, Nas sessões seguintes, estas atividades serão, como proposta deste trabalho, decompostas em atividades independentes e receberão outras denominações.


Figura 2. Exemplo Metodológico para Aplicação do Comissionamento Durante o Ciclo de Vida do Projeto segundo Gaete e Prates (2007)


Gerenciamento da Qualidade Segundo PMBoK

O PMBoK divide o Gerenciamento de Projetos em uma matriz de nove áreas de conhecimento (Integração, Escopo, Tempo, Recursos Humanos, Qualidade, Risco, Custos, Aquisições, e Comunicação), por cinco Grupos de Processos de Gerenciamento de Projetos (Iniciação, Planejamento, Execução, Monitoramento e Controle, e Encerramento). Dentro de cada intersecção de linhas e colunas, podem ser encontrados diversos Processos de Gerenciamento de Projetos.Segundo os Capítulos 8 do PMBoK e do Construction Extension to The PMBoK, os processos de gerenciamento da qualidade do projeto incluem todas as atividades da organização executora que determinam as responsabilidades, os objetivos e as políticas de qualidade, de modo que o projeto atenda às necessidades (e aos requisitos) que motivaram sua realização. Para tanto, são identificados 3 processos de gerenciamento da qualidade do projeto, descritos abaixo.

 

 » Planejamento da Qualidade: identifica e documenta formalmente os padrões de qualidade (incluindo métricas, normas, metas e limites de tolerância) relevantes para o projeto, e determina os procedimentos que deverão ser atendidos para satisfazê-los, assim como os responsáveis. Além disso, define a linha de base de qualidade (requisitos de sucesso do projeto em termos de gerenciamento e de entregas).

» Realizar a Garantia da Qualidade: identifica as sistemáticas e procedimentos para garantir que o projeto execute todos os processos necessários de gerenciamento de projetos em conformidade aos requisitos definidos contratualmente. Este processo visa à otimização e à melhoria contínua dos processos de gerenciamento do projeto para reduzir os desperdícios e eliminar as atividades que não agregam valor. Importante destacar que este processo é voltado para a melhoria da qualidade dos processos e procedimentos de gerenciamento de projetos em si, e não das entregas (produtos ou serviços) encomendadas. As principais ferramentas deste processo são: Análise de Processos e Auditorias de Qualidade.

» Realizar o Controle da Qualidade: monitora os resultados das entregas (produtos e serviços) específicos ao projeto, a fim de determinar se elas estão de acordo com os padrões e normas de qualidade requeridas contratualmente, e identifica maneiras de eliminar as causas do desempenho insatisfatório. Os padrões de qualidade incluem metas de produtos e também dos processos necessários para a confecção dos produtos. As ferramentas destacadas no PMBoK são: Diagrama de causa e efeito (Ishikawa / Espinha de Peixe), Gráficos de controle, fluxogramas, Histograma, Diagrama de Pareto (80/20), Amostragem estatística, Diagrama de dispersão, Inspeção (para garantia de atendimento às normas de projeto), e Revisão de Reparo de Defeito (caso haja uma não-conformidade no equipamento na Inspeção). Este processo é direcionado à qualidade das entregas (produtos ou serviços) encomendadas (em atendimento ao que foi definido em contrato). Podemos destacar as seguintes ferramentas: Inspeção e Revisão de Reparo de Defeito. Uma inspeção é o exame de um produto do trabalho para determinar se ele está de acordo com as normas. As inspeções podem ser conduzidas em qualquer nível. Por exemplo, é possível inspecionar os resultados de uma única atividade ou o produto final do projeto. As inspeções também são chamadas de revisões, avaliações por pares e geralmente ocorrem in loco (ou seja, dentro do fornecedor). As inspeções servem para validar a Revisão de Reparo de Defeito (caso haja uma não-conformidade). Contudo, o PMBoK Se limita a explicar Inspeção e Revisão de Reparo de Defeito, quando em projetos industriais, estas ferramentas não são suficientes e, portanto, deve ser complementado.

 

Com o objetivo de complementar o PMBoK, uma vez que as entregas (fornecimento de equipamentos e módulos) sejam aceitas, estes suprimentos podem ir para estoque do projeto (para o canteiro de obras), onde deverão ser aplicadas técnicas de Condicionamento (ou preservação) até sua aplicação. Note que esta é a visão de um integrador (i.g.: “EPCista”), onde ele recebe os suprimentos, coloca em estoque (no canteiro) e mantêm este equipamento preservado até a hora de sua montagem no projeto. Após isto, uma vez iniciada a fase de Construção & Montagem destes equipamentos, conforme Gaete e Prates (2007): executar-se-ão procedimentos e técnicas de engenharia, de forma integrada, a fim de tornar operacional a unidade (ou planta) industrial, dentro dos requisitos estabelecidos pelo cliente final. É neste contexto que o Comissionamento e outras técnicas serão aplicados. Além disso, deve-se considerar que estas técnicas se aplicam às todas as disciplinas de engenharia: construção civil, caldeiraria, tubulação, máquinas, elétrica, instrumentação e automação, eletrônica, e processo.

Condicionamento, Comissionamento, Partida e Operação Assistida como Ferramentas do Processo de Controle de Qualidade em Projetos Industriais

No processo de Realizar o Controle da Qualidade, muito embora a ferramenta de Inspeção sirva para homologar as entregas ou encaminhar à Revisão de Reparo de Defeito (caso haja uma não conformidade), o PMBoK e o Construction Extension to The PMBoK não explicitam a necessidade de preservação uma vez que os equipamentos foram aceitos e supridos pelos fornecedores, assim como não detalham a necessidade de testes que assegurem a operabilidade do sistema como um todo. Desta forma, a fim de complementar o PMBoK, deve-se destacar a importância da inclusão das seguintes ferramentas (técnicas ou atividades) descritas abaixo e largamente utilizadas em processo industriais.

Condicionamento ou Preservação => É o processo que tem por objetivo assegurar preventivamente que os componentes de uma edificação ou uma unidade industrial (assim como o sistema) sejam rotineiramente inspecionados a fim de ter a integridade mantida. Consiste em aplicação integrada de um conjunto de técnicas e procedimentos de engenharia para preservar cada componente físico do empreendimento, desde os equipamentos individuais (como peças, instrumentos e equipamentos), até módulos, subsistemas integrantes de um projeto. Esta atividade ocorre uma vez que os equipamentos e componentes tenham passada atividade de Inspeção (atentando, assim, a sua conformidade) e tenho sido aceito para entrega no estoque do canteiro de obras até sua aplicação pela firma integradora do projeto (i.g.: “EPCista”). Geralmente são conhecidos por: testes sem carga (“testes a frio”). É necessário um plano e um sistema gerencial de programação da rotina de preservação para cada equipamento (descrevendo, inclusive, os procedimentos recomendados pelo fabricante e os recursos necessários). Principais exemplos de atividades de Condicionamento são: limpeza, secagem, pintura, lavagem, calibração de válvulas, aplicação de regras de estocagem, energização de equipamentos, flushing de sistemas de lubrificação, inertização de equipamentos (por exemplo: através de injeção de hidrogênio para retirada de oxigênio e, portanto, de umidade a fim de evitar oxidação ou explosão).

Comissionamento ou Pré-Operação => É o processo que tem por objetivo assegurar preventivamente que os componentes, equipamentos, módulos, e sistemas de uma edificação ou unidade industrial (assim como a integração e completação entre eles) sejam testados para que os requisitos de operação estejam de acordo com o que foi contratado pelo cliente. O Comissionamento consiste na aplicação integrada de um conjunto de técnicas e procedimentos de engenharia para verificar e testar cada componente físico do empreendimento, desde os equipamentos individuais (como peças, instrumentos e equipamentos), até os módulos, subsistemas e sistemas completos. Geralmente são conhecidos por: testes com carga (“testes a quente”). Também faz parte do Comissionamento (ou pode-se subdividi-lo, como foi optado neste artigo) as subatividades conhecidas por: Pré-comissionamento, Pré-operação e Preparação de Partida. Principais exemplos de atividades de Comissionamento são: testes de malhas elétricas (loop test), testes hidrostáticos, testes de instrumentação, e testes de completação mecânica dos sistemas e subsistemas, e identificar deficiências para solicitação de reparos de defeitos para realização de correções.

Partida (Startup) => Não se deve entender “partida” como um marco, pois é uma atividade que pode ser executada em um período de tempo onde serão aplicados diversos procedimentos recomendados pelo fabricante das unidades, além da execução da sequencia de partida, tal como planejado. Além disso, para encerramento desta atividade não é necessário que o projeto esteja operando em sua plena capacidade ou normalidade, pois a estabilização da operação será executada na atividade de Operação Assistida. Segundo (Parodi, 2001) “Startup ends only when the project is in routine operation although not necessarily at full design capacity production”.

Operação Assistida ou Estabilização da Operação => Esta atividade ocorre após a partida, cujo objetivo é a estabilização da operação das unidades ou do sistema, atestando a confiabilidade da eficiência definida previamente acordada entre as partes. Após a Operação Assistida, finaliza-se o Processo de Verificação de Escopo, onde se espera que, de fato, todo o sistema seja aceito pelo cliente. Esta é a fase na qual se dá a transferência dos sistemas à operação.

 

 Já a Entrega pode ser entendida como uma “Fase de Transição” entre a Construção & Montagem e Operação. Muito embora o processo de Verificação do Escopo aconteça durante todo o ciclo de vida do projeto, é na fase da Entrega que ocorre a Verificação Final do Escopo (VFE) onde ocorre a aceitação, pelo cliente, do sistema (projeto) como um todo. Lembrando que a Verificação do Escopo faz parte do Grupo de Processos de Monitoramento e Controle. O Comissionamento, Condicionamento, Partida e Operação Assistida não fazem parte do Processo de verificação de Escopo, mas sim do Processo de Controle da Qualidade, e serão utilizados no primeiro processo para aceitação das entregas. Na fase de Entrega, mediante assinatura do Termo de Aceitação do projeto como um todo, pode-se passar para os processos de Encerramento do Projeto (onde ocorre a entrega de: arquivos de projetos, data book, as-built, plantas, desenhos, os registros de lições aprendidas, etc) e de Encerramento Contratual.Lembrando que, no Planejamento do Projeto, são gerados todos os planos e documentos de planejamento, incluindo: Plano de Gerenciamento do Condicionamento, Plano de Gerenciamento do Comissionamento, Plano de Partida e Plano de Operação Assistida. É recomendável que cada possa, quando aplicável (mas não se limitando), contemplar o planejamento em termos de: responsáveis, estrutura analítica (EA), cronograma com rede de precedência e recursos (Resource Loaded Schedule), estimativa de custo, normas, metas, procedimentos, técnicas, ferramentas, rotinas, softwares que são aplicados em cada atividade, documentos que serão gerados, testes de aceitação de desempenho, plano de comunicação, e, quando aplicável em contrato, os manuais de operação.Importante salientar que, na entrega, não só o Plano de Gerenciamento da Qualidade (contendo os Planos de Condicionamento, Comissionamento, Partida, Operação Assistida), como também o Relatório Final de Comissionamento deverão ser entregues ao cliente final. Este relatório, a exemplo do Relatório de Estudo de Comissionamento (RECOM), que deve ser entregue ao Operador do Sistema Elétrico (ONS), no caso da implantação de um projeto no sistema elétrico brasileiro, deve conter: informações sobre os teste e ensaios realizados com descrição detalhada, condições de realização, métodos, normas, recomendações do fabricante; pendências de Comissionamento com reflexo operativo; limitações operativas resultantes das pendências de Comissionamento; e plano de ação para eliminação de pendências e limitações operativas. O desempenho do Comissionamento também deve ser medido e monitorado, quando esta atividade for contratada pelo projeto como um serviço à parte.Para um melhor entendimento, a Figura 3 ilustra a sequencia das atividades para realização do Processo de Controle da Qualidade das entregas do projeto por fases do ciclo de vida do mesmo. Durante o suprimento (que é uma atividade do Gerenciamento de Aquisições), acontece a atividade de Inspeção e Reparo de Defeitos. O Condicionamento ocorre à medida que os equipamentos forem sendo entregues à empresa integradora e sejam estocados até a sua aplicação no projeto. Segundo International Electrotechnical Commission (2006: 6): “Construction and precommissioning activities could be overlapping”.Após o sistema comissionado (ou seja, “testado a quente”), inicia-se a atividade de Partida e, posteriormente, de Operação Assistida (necessária para estabilizar a eficiência operacional do sistema como um todo).Para que se possa avaliar, aferir e atestar a conformidade física do item condicionável, em relação às especificações técnicas de projeto, operabilidade, conformidade física, e requisitos da qualidade, de segurança, de meio ambiente e saúde (QSMS), é normal que se faça um gerenciamento por pendências. Qualquer desvio que afete esses requisitos pode ser visto como pendência a ser resolvida. Assim, pode-se classificar as pendências por nível de gravidade, tal como exemplo abaixo.

 

» Pendências Tipo “A” (relevantes): representam aquelas que impedem a continuidade das atividades na fase seguinte, principalmente nos itens relacionados com segurança, integridade e desempenho dos equipamentos/sistemas, e que deverão ser completamente eliminados na fase na qual foram identificados.

» Pendências Tipo “B” (não-relevantes): representam aquelas que não impedem a continuidade das atividades na fase seguinte, principalmente nos itens relacionados com segurança, integridade e desempenho dos equipamentos/sistemas, mas deverão ser reparados o mais rápido possível antes da fase de Partida/Operação.

 

A depender da gravidade das pendências identificadas, pode-se formular emissão de níveis de aceitação dos itens, malhas, subsistemas, também exemplificados abaixo.

» Termos de Transferência e Aceitação do Sistema (TTAS), que pode ser subdividido em:

– TTAS-1, quando o sistema envolvido apresenta somente itens pendentes do Tipo “B”;

– TTAS-2, quando o sistema envolvido não apresenta itens pendentes do Tipo “A” e do Tipo “B”.

» Termo de Recebimento Provisório da Unidade (TRPU), que pode ser emitido com algumas Pendências Tipo “B” (não-relevantes) abertas. O ideal é que a partida das unidades industriais aconteça somente quando todos os itens pendentes de comissionamento tiverem sido eliminados, ou seja, quando haja a emissão de 100% das TTAS-2. Contudo, isto não ocorre, pois não é conveniente do ponto de vista econômico, pois pode atrasar a partida e, por conseqüência, a geração de receita para a empresa / cliente. Assim, opta-se partir a unidade industrial mesmo com, pendências Tipo “B” (não relevantes) abertas (isto é, mesmo com carryover). A Operação Assistida sim deve iniciar quando houver a emissão de todas as TTAS-2. » Termo de Recebimento Definitivo (TRD) ou Verificação Final do Escopo (VFE) ocorre quando há a conclusão satisfatória da Operação Assistida, com a unidade industrial atendendo todos os requisitos pré-estabelecidos, sem pendências e aprovação de toda documentação final referente ao escopo deste serviço, devidamente atualizada, contendo todas as evidências. É neste momento que o Termo de Aceitação do Projeto como um todo, é assinado pelo cliente – a partir daí pode-se iniciar as atividades de Encerramento do Projeto e Encerramento Contratual. Após a emissão do Termo de Recebimento Definitivo (TRD), entrega-se o ativo para operação do cliente. Importante ressaltar que, muito embora o processo de Verificação do Escopo aconteça durante todo o ciclo de vida do projeto, é na fase da Entrega que ocorre a Verificação Final do Escopo (VFE) ou emissão do Termo de Recebimento Definitivo (TRD).

Para gestão do comissionamento, é necessário utilizar um software específico, onde todas as pendências impeditivas ou não-impeditivas devem ser registradas. Abaixo segue alguns principais exemplos mais usuais de pacotes comerciais disponíveis no mercado:

ø CMSapp Database, desenvolvido por CMScompletion (Singapura);

ø GO-CMMS, desenvolvido por QED International (UK);

ø Go-Console, desenvolvido por Lucy Software BV (Holanda);

ø HMSWeb©, Handover Management System, desenvolvido por HMSWeb Ltda / Forship Engenharia (Brasil);

ø PCMsys, desenvolvido por PCM Engenharia (Brasil);

ø PIMS CMS, desenvolvido por Omega (Noruega);

ø PWCom, desenvolvido por Portreef (Austrália);

ø WinPCS, desenvolvido por Complan (Noruega);

ø PRECOM, desenvolvido pela Techint (Argentina).

 Além disso, é comum observar que os itens comissionáveis devam abranger os equipamentos identificados por um código individual (TAG Number). Contudo, o universo de itens comissionáveis deve ser avaliado para que não se deva gerar trabalho desnecessário ou para não haja um “sobre-esforço” na atividade de gerenciamento do comissionamento.

 

Figura 3. Seqüência das Atividades para Realização do Controle da Qualidade das Entregas do Projeto por Fases do Ciclo de Vida (Visão do Integrador do Projeto, i.g.: “EPCista”)


Considerações Finais

A falta de objetividade de definição do termo, Comissionamento, e seu entendimento como uma fase do ciclo de vida do projeto pode gerar imprecisões e conflitos contratuais entre as partes envolvidas em projetos industriais.

Assim, a proposta de uma definição mais objetiva das atividades necessárias para a realização do Controle da Qualidade em projetos industriais, permite identificar e medir a eficácia de cada uma das atividades até a aceitação das entregas pelo cliente. Foi desta forma que este trabalho visou agregar ao sugerir uma forma alternativa de definição e sequenciamento de atividades que compõe o processo de Realizar o Controle da Qualidade do PMBoK. Isto foi feito através da adição e divisão das atividades, ou um conjunto de técnicas e de ferramentas (Condicionamento, Comissionamento, Partida e Operação Assistida), que antes eram confusamente tratadas como parte integrante um pseudo “Grande Comissionamento”. Se as atividades (Condicionamento, Comissionamento, Partida e Operação Assistida) requerem um conjunto de técnicas distintas para serem executadas, porque não separá-las em atividades independentes para melhor entendimento? Este trabalho está em pleno alinhamento com o PMBoK e apenas visa complementá-lo, assim como o Construction Extension to The PMBoK, para o caso de gerenciamento de projetos Industriais.


Referências Bibliográficas

DE SOUZA, Gil Fábio. Proposta de um Modelo para Gerenciamento das Comunicações na Gestão de Projetos para Empresas de Tecnologia. Florianópolis (SC), Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Produção da Universidade Federal de Santa Catarina: Dez/2002 (Dissertação de Mestrado). GAETE, Luciano; e PRATES, Antonio João. Ferramentas de TI para o Comissionamento de Empreendimentos Industriais. In: Apresentação para XX COPINAVAL – Congresso Panamericano de Engenharia Naval, Transporte Marítimo e Engenharia Portuária. São Paulo (Brasil) realizado no dia 26/Out/2007 (disponível no site da internet: http://www.copinaval.com/downloads/XX/4I/FERRAMENTAS.pdf no dia 14/11/2008).
GANDRA, Rodrigo Mendes. “Comissionamento de Projetos de Oil & Gas (IBP2065_10)”. Anais do Rio Oil & Gas Expo and Conference 2010. Rio de Janeiro (RJ). Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (IBP), 2010.
GANDRA, Rodrigo Mendes: e LOPES, Raphael de Oliveira Albergarias. “Comissionamento como uma Ferramenta do Processo de Controle da Qualidade em Projetos Industriais”. Mundo Project Management, ano 5, n. 30. Curitiba (PR), 15/01/2009, p. 22-27.
INTERNATIONAL ELECTROTECHNICAL COMMISSION (IEC). Commissioning of electrical, instrumentation and control systems in the process industry – Specific phases and milestones. International Standard – IEC 62337:2006(E). Switzerland: 2006.
OPERADOR NACIONAL DO SISTEMA ELÉTRICO (ONS). Estudos de comissionamento de instalações da rede de operação. Sub-módulo 21.3, Revisão 1 de 12/09/2005 (disponível no site da internet: http://www.ons.org.br).
PARODI, Felix J. Lessons From Quantitative Competitive Benchmarking to Impact the Capital Effectiveness of the Latin American Forest, Pulp and Paper Industry. In: 34º Congresso Anual de Celulose e Papel (Associação Brasileira Técnica deCelulose e Papel – ABTCP). São Paulo (Brasil): Out/2001.
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PROJECT MANAGEMENT INSTITUTE (PMI). Project Management Body of Knowledge PMBoK. USA: 2008 (Fourth Edition).
SCOTTMADDEN, INC. Project Controls: Managing and Controlling Large Projects. Atlanta (USA): Jan/2009 (apresentação disponível em 03/06/2009 no site: http://scottmadden.com/insight/267/Project-Controls.html).

Rodrigo Mendes Gandra Especialista em Planejamento e Controle da OSX Construção Naval, com 8 anos de experiência em análise econômica/valuation e gestão de projetos industriais (E&P e Refino da PETROBRAS, Ernst & Young e Repsol Sinopec Brasil), 2 anos de experiência em análise macroeconômica (IPEA, DIEESE, Eletrobras), Mestre em Economia pela UFF, Bacharel em Economia pela UFRJ, Project Management Professional (PMP-PMI), Risk Management Professional (PMI-RMP), Project Management Associate Level D (IPMA-D).rodgandra@gmail.com

2 Comentários

  1. Boa noite Caro Rodrigo, pessoal

    Muito bom o artigo.
    Tenho larga experiência em industria de grande porte, nas áreas de Eletricidade, Manutenção e Empreendimento.
    Entregar o escopo combinado não é o suficiente, pois a unidade/planta precisa ser entregue devidamente comissionada. Este termo é tão importante que merecia uma nova área de Conhecimento no Guia PMBOK e não estar diluída em outra, como Qualidade. Hoje não recebe o devido tratamento.
    Defendemos a metodologia de executar o comissionamento, ao longo da obra em si e não apenas na fase final.
    Como pessoa que vivenciou a área de Manutenção sei como é difícil receber um empreendimento com comissionamento deficiente.
    abs

  2. Excelente artigo, muito esclarecedor e as partes estão lincadas e entremeadas de forma a facilitar o entendimento do todo.
    Estou finalizando um trabalho do MBA e já tinha lido outros tantos artigos, mas confesso que esse foi um achado. É uma pena que ainda tenhamos tão pouco material sobre o assunto, especialmente livros.
    Abraços,
    Rosana.

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